quinta-feira, 27 de outubro de 2016

Lava-Jato investiga outra cobertura usada por Lula e Marisa em São Bernardo do Campo SP

Lula e Marisa acenam do imóvel onde moram em São Bernardo. Cobertura vizinha, usada por ele, é investigada na Lava-Jato​
Odebrecht é suspeita de ter comprado imóvel em São Bernardo

A força-tarefa da Operação Lava-Jato investiga se a segunda cobertura usada pelo ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva no edifício Green Hill, em São Bernardo do Campo, foi comprada com dinheiro da Odebrecht. Em 20 de dezembro de 2010, Glaucos da Costamarques recebeu R$ 800 mil da DAG Construtora, investigada por ser usada pela Odebrecht para negócios ilícitos. Pouco depois, no início de 2011, Glaucos — que é primo do pecuarista José Carlos Bumlai, amigo de Lula — comprou o imóvel e passou a alugá-lo formalmente para o ex-presidente.
Os investigadores suspeitam que a operação de aluguel tenha sido simulada para dar caráter formal ao uso do apartamento por Lula. Localizado pelo GLOBO na terça-feira, Costamarques disse que não se pronunciaria sobre o tema.
GOVERNO FEDERAL ALUGAVA IMÓVEL
Lula comprou o apartamento 122, onde mora, em 2000. Durante o período em que foi presidente, o governo federal alugou o imóvel vizinho, de número 121, para ser usado por agentes que cuidavam de sua segurança.
Entre 2011 e 2015, o ex-presidente declarou em seu Imposto de Renda ter pagado R$ 236,1 mil em aluguéis a Costamarques: R$ 42 mil em 2011, R$ 46,2 mil em 2012 e 46,8 mil em 2013, R$ 49,8 mil em 2014 e R$ 51,3 mil em 2015.
Os valores são menores que os pagos anteriormente pela Presidência. Em 2010, último ano de Lula como presidente, o Gabinete de Segurança Institucional (GSI) repassou R$ 54,6 mil à antiga proprietária, Elenice Silva Campos.
Apesar de ser o dono de fato do apartamento, Costamarques ainda não pôde registrá-lo formalmente em cartório devido a pendências judiciais. Ele adquiriu o direito de herança da família Campos, antiga proprietária do imóvel, e aparece como interessado no processo de inventário e partilha na Justiça. Os advogados dele no caso são Roberto Teixeira e Cristiano Zanin Martins, que advogam para Lula na Lava-Jato.
Em março deste ano (quando foi divulgada pela primeira vez a informação de que o apartamento 121 pertencia a Glaucos), Paulo Okamotto, presidente do Instituto Lula, alegou que houve a preocupação de se procurar uma pessoa conhecida para ocupar o imóvel, pois “ser vizinho de um político sempre causa transtorno”. E disse que foi achada “uma que queria apenas investir”.
O primo de Glaucos, Bumlai, sempre foi uma pessoa próxima a Lula. Na época, o advogado Roberto Teixeira afirmou que é especialista em Direito imobiliário e que indicou o imóvel a Glaucos da Costamarques.
DAG BANCOU GASTOS COM AVIÃO EM 2013
Pertencente a amigo de Marcelo Odebrecht, Demerval Gusmão, a DAG é suspeita de ser porta de saída para ocultar atividades ilícitas da empreiteira. Agiria em paralelo ao setor de Operações Estruturadas da Odebrecht, como era conhecido o setor de propinas.
A DAG foi usada pela Odebrecht para bancar despesas de avião usado por Lula em 2013, numa viagem a Estados Unidos, Cuba e República Dominicana. O voo custou R$ 435 mil e foi classificado pela Líder Táxi Aéreo, responsável pela viagem, como “sigiloso”.
Essa viagem de Lula não tinha ligação oficial com os negócios da empreiteira. No trecho dos Estados Unidos, o ex-presidente tinha agendado um congresso de trabalhadores.
Quando O GLOBO revelou o caso, em abril de 2015, a empreiteira apresentou versões contraditórias. Primeiro, alegou que acionou a DAG por “questões de logística”. Depois, em comunicado à imprensa, disse se tratar de participação de fornecedores na estratégia de “abrir portas do mercado internacional”. Lula viajou com Alexandrino Alencar, executivo acusado de operar propinas em nome da Odebrecht.
PAGAMENTO A FERNANDO BAIANO
A DAG também foi intermediária da compra de um imóvel, na Zona Sul de São Paulo, que seria destinado a ser sede do Instituto Lula, o que acabou não ocorrendo. No entanto, a compra foi registrada por R$ 6,8 milhões. O prédio estava à venda por R$ 10 milhões e tinha débitos de impostos. A Lava-Jato considerou esse valor compatível com a cifra de R$ 12,4 milhões registrada em uma planilha encontrada em e-mail de executivos da Odebrecht, que, segundo as investigações, registrava propinas direcionadas ao PT.
A DAG pagou, ainda, pelo menos R$ 1,6 milhão ao lobista Fernando Baiano, acusado de ser operador de propinas para dirigentes do PMDB, em 2009 e 2010, de acordo com registros da Receita Federal. Foi também fornecedora da Odebrecht em diversos contratos com suspeita de pagamento de propina.
O GLOBO perguntou aos advogados de Lula se ele sabia que o apartamento de Costamarques pode ter sido comprado com dinheiro da Odebrecht, mas não teve resposta. Quando os repasses de Lula a Costamarques vieram à tona, em março deste ano, eles informaram que Lula sempre foi “locatário do imóvel, pagando aluguel ao novo proprietário ao valor de mercado”. A DAG e a Odebrecht não se pronunciaram.

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