terça-feira, 22 de novembro de 2016

Às vésperas do incêndio ✰ Artigo de Ricardo Noblat

Fica combinado assim: anistia-se quem cometeu crime de caixa dois – a doação e o uso de dinheiro não declarado à Receita e à Justiça para financiar campanhas eleitorais.
Anistia-se também quem cometeu o crime de lavagem de dinheiro. E para que não reste brecha, anistia-se quem cometeu crime de corrupção. Que tal?
É isso o que a Câmara dos Deputados ameaça aprovar, se possível, ainda esta semana.
Lamentam os que desejam anistia para seus crimes que ela não tenha sido aprovada na semana passada. Teria provocado a ira da opinião pública? Certamente.
Mas nada que não pudesse ser aplacado em seguida pela onda de satisfação que se levantou no país com a prisão num período de 24 horas de dois ex-governadores do Rio de Janeiro - Sérgio Cabral e Garotinho, acusados de corrupção.
Admitamos: nunca antes na história do Brasil, dois ex-governadores do segundo mais importante Estado do país foram postos no xilindró e submetidos às mesmas regras que ditam a vida dos demais presos.
É verdade que Garotinho acabou enviado a um hospital por causa de uma artéria entupida. Mas se ficar bem, poderá mais adiante ir para Bangu 8, o mesmo destino de Cabral.
A observar no caso da prisão dos dois, o esculacho ao qual sempre estão sujeitos os mais notáveis suspeitos ou condenados por crimes em geral. 
O transporte de Garotinho para o presídio foi filmado em seus mais dramáticos detalhes. Mal Cabral deu entrada ali, fotos dele com a cabeça raspada já circulavam nas redes sociais.
A privacidade é um direito assegurado a todos por lei, até mesmo a bandidos.
Às favas todas as leis que obriguem os políticos a se por de acordo com o Novo Estado esboçado pela Lava-Jato com amplo apoio popular. É o que eles desejam.
Chamo de Novo Estado para não remeter ao Estado Novo de Getúlio Vargas, de tristes e de tão amargas lembranças. A sociedade de junho de 2013, das gigantescas manifestações de ruas pelo impeachment, só tem feito avançar.
Deixou para trás empresários e políticos do Estado em ruína, do capitalismo de laços que resiste a sair de cena para dar lugar a um Estado capitalista baseado na livre competição.
A corrupção não deixará de existir uma vez que se faça tal passagem. Mas ela será menor se comparada ao seu tamanho atual. Os empresários e políticos do regime ancião estão na contramão da História.
O governo Michel Temer é um paradoxo. Ao mesmo tempo em que se oferece como “uma ponte para o futuro” é formado por legítimos representantes de um passado que pretende apagar.
Se não apagar por impossível, relegar a um plano subalterno onde poderia ser estudado pelos interessados em pesquisar e compreender melhor os vários estágios da evolução de um povo.
Estabelecer um teto para gastos públicos; resgatar a lei de responsabilidade fiscal; reformar a Previdência, a legislação trabalhista e a Política; com tudo isso e mais alguma coisa acena o governo de Temer, refém do estilo excessivamente conciliador do seu titular, das angústias que o fazem hesitar ou retroceder muitas vezes, e de um sistema político apodrecido.
Neste mesmo governo, um ministro vai às compras, faz advocacia administrativa a favor de um empreendimento imobiliário, é denunciado por outro ministro que se demite, e vira alvo de investigações no Congresso.
Temer, o Senhor Prudência, brinca com fogo às vésperas de novas revelações que poderão incendiar boa parte da República.
Ricardo Noblat - Jornalista. Formado pela Universidade Católica de Pernambuco. Foi editor-chefe do Correio Braziliense e da sucursal do Jornal do Brasil em Brasília.

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