domingo, 20 de novembro de 2016

Garotinho e Cabral: que democracia é essa? ✰ Artigo de Sérgio Alves de Oliveira

Após muitos anos de omissão das autoridades responsáveis pelo combate ao crime relativo à coisa pública, particularmente no Serviço Público Federal, e do silêncio sepulcral da Grande Mídia, que certamente sempre soube de “tudo”- provavelmente mais que a Polícia, o Ministério Público, a Justiça e os Tribunais de Contas, somados - finalmente as janelas da chamada “democracia” brasileira foram abertas. As irregularidades de “arrepiar” que apareceram nessas janelas, por exemplo, envolvendo os dois ex-Governadores do Rio de Janeiro, certamente já eram conhecidas, porém guardadas a “sete chaves”, ou seja, mantidas em segredo durante o longo tempo em que a mídia e muita gente foram pagos para isso. Mas o tempo passa. Agora Anthony Garotinho e Sérgio Cabral não têm mais as chaves do cofre onde guardavam o dinheiro que comprava tanta gente durante os seus respectivos “tempos”. Considerados “descartáveis”, portanto.                                                   
Bastou uma pequena centelha, nos “novos tempos”, que a “bomba” explodiu. As minúcias dos crimes contra o erário levadas ao conhecimento público pela imprensa, que finalmente abriu as “comportas” da corrupção envolvendo esses personagens, com repercussões que certamente envolverão muitos outros “figurões”, especialmente Lula e Dilma, que politicamente sempre foram “íntimos” de Cabral, e que supostamente teriam agido em parcerias promíscuas, só podem ser concebidas na hipótese de que já fossem do prévio conhecimento dessa mídia.
O enquadramento desses dois delinquentes políticos no esquema de “corrupção sistêmica” (expressão do Juiz Sérgio Moro) pode ser considerada a ”gota d’água” para uma radical mudança de conceitos no dicionário político. Definitivamente o Brasil não pratica nenhuma DEMOCRACIA, apesar do mandamento constitucional inserido tanto no “preâmbulo” da Constituição (“Nós, representantes do povo brasileiro, reunidos... para instituir um ESTADO DEMOCRÁTICO...”), quanto no seu artigo 1º (“A República Federativa do Brasil... constitui-se em Estado Democrático de Direito...”.
Provarei que esse preceito constitucional não passa de uma enorme MENTIRA, de uma FANTASIA política, e que o Brasil jamais praticou qualquer democracia, menos ainda na “Era PT”, iniciada em 2003, até agora, porque apesar do “impeachment” de Dilma, o PT continua com forte influência no Governo, simplesmente pelo fato de possibilitar e até favorecer a ascensão política de elementos egressos da pior escória da sociedade.
Essa situação vivida pelo Brasil tem precedentes na história de outros países. Até Adolf Hitler teve a capacidade de denunciá-las, na sua “Mein Kampf” (Minha Luta). Segundo o “fuhrer”, a validade da democracia como método de escolha dos dirigentes políticos dependeria essencialmente do “material” humano participante do respectivo modelo democrático. E quando ele aborda a política do seu país natal, relata que na consciência política que dominava a Áustria de então, eram atraídos para a vida pública as mentalidades mais vulgares, sendo convocados a fazer política muitos indivíduos que ele caracterizava como a “baixeza da canalha”. A dúvida que fica: se porventura essa afirmação na “Mein Kampf“ tivesse procedência, teria essa realidade sido exclusivamente em relação à antiga Áustria? Ela não estaria acampada também em outros países? E no Brasil, como ficaria essa situação? Outra dúvida: não teria sido mais por essas afirmações “ofensivas” aos políticos que no meio deles Hitler é considerado hoje o facínora número UM da humanidade, e que essas ofensas, relativas a eles, seriam consideradas mais graves, até mesmo que os horrores cometidos sob as suas ordens? Será que esses políticos canalhas que tanto tripudiam Adolf Hitler seriam melhores que ele, desde o momento em que também matam, apesar de indiretamente, milhões de pessoas, roubando do erário montanhas de dinheiro que poderiam melhor socorrer a população especialmente de baixa renda, com investimentos públicos na segurança e saúde? Onde está a moral desses patifes, especialmente do Brasil - onde há grande concentração deles - para criticar Hitler? Mas em vista da demonização que os “demônios” metidos na política fazem do nome do austríaco, considero até a possibilidade de ser atacado por eles – que só sabem se defender atacando – que até dariam conotações de “nazistas”, e similares, às afirmações aqui contidas, e que os colocam no banco dos réus. Mas não é nada disso. Não estou defendendo ou minimizando a ação criminosa de Hitler contra segmentos populacionais, especialmente judeus, que igualmente condeno. O que estou afirmando, isso sim, é que essa gente não é nada melhor que Hitler, e que também mata milhões, apesar de fazê-lo por outras modalidades, dificilmente perceptíveis à “olho nu”, dissimuladas, portanto fazendo jus à igual, ou até maior, repulsa. Conclusão: Hitler é, sim, responsável pela morte de muitos, mas nunca roubou; porém esses canalhas da política que hoje o condenam tanto também mataram e continuam matando muitos, por outras formas, e além disso ROUBAM do erário, coisa que Hitler nunca fez e que jamais foi ventilado nem mesmo no Tribunal de Nuremberg.
Mas agora retornado ao centro da discussão aqui proposta, onde se afirma que no Brasil não existe democracia, e que ela está somente no papel e não nos costumes da política e nas suas práticas, evidentemente há que se encontrar o verdadeiro modelo que se instalou e tomou o lugar da democracia. Buscando socorro nos grandes pensadores, demonstrarei que o modelo político realmente praticado no Brasil é a OCLOCRACIA, que por sua definição seria a democracia deturpada, degenerada, corrompida, “às avessas”, praticada pela massa ignara em proveito da patifaria política. Então é preciso “destrinchar” essa chamada (erroneamente) democracia, mostrando as suas vísceras, e que ela longe está de ser o que aparentemente representa. E prova maior dessa afirmação não poderia ser conseguida que não pela simples apresentação dos casos “Garotinho” e “Sérgio Cabral”, elementos que, conforme só agora apurado, após tantos anos de suas falcatruas políticas, a exemplo de tantos outros, jamais prosperariam numa verdadeira democracia. Essa gente, portanto, é produto da OCLOCRACIA, não da democracia.
Aristóteles (384 a.C-322 a.C), na sua “Política”, classificava as formas de governo em duas grandes vertentes: as PURAS e as IMPURAS. As PURAS seriam a MONARQUIA (governo de um só); a ARISTOCRACIA (governo dos melhores); e a DEMOCRACIA (governo do povo). Já as formas IMPURAS residiriam, respectivamente, na TIRANIA (corrupção da Monarquia); na OLIGARQUIA (corrupção da Aristocracia); e na DEMAGOGIA (corrupção da Democracia). Mas o filósofo somente abriu o caminho para que outros pensadores de primeira linha prosseguissem na trajetória dessa discussão.
E foi com POLÍBIO (203 a.C-120 a.C), geógrafo e historiador da Grécia Antiga, que a ideia de Aristóteles tomou impulso. Baseado nos estudos que fez sobre a realidade política de Roma da época, onde residiu durante longo tempo, Políbio manteve a classificação das formas de governo proposta  por Aristóteles, porém substituindo a “FORMA IMPURA” de governo, representada pela DEMAGOGIA, pelo que  ele chamou de OCLOCRACIA, que de fato foi uma expressão bem mais abrangente para caracterizar a corrupção da democracia, onde se mantinha a “demagogia” como um dos elementos que a caracterizavam, porém acrescida de diversos outros vícios que geralmente somam-se a essa modalidade de corrupção da democracia, dentre elas ficando mais saliente a MENTIRA.  Para Políbio, a forma de governo mais coerente com as necessidades e bem-estar do povo estaria numa combinação entre as 3 Formas Puras de Governo, ou seja, entre a Monarquia, a Aristocracia e a Democracia.
Então a OCLOCRACIA representa o mesmo que uma democracia meramente formal, desprovida de qualquer substância, sem essência, praticando-a a massa carente de consciência política, ignorante e completamente alienada das primeiras causas das próprias desgraças, portanto presa fácil dos trapaceiros que entram na política. Não é nada difícil compreender, portanto, as razões pelas quais para esse tipo repugnante de gente “falar mal” da democracia é crime maior que falar mal da própria mãe de cada um deles. E mesmo de Deus.  E são justamente eles os maiores defensores do modelo que definem como sendo democracia (que é falsa), contaminado com essa visão distorcida boa parte da opinião pública “burra”, que cai nessa armadilha. Todavia, ”eles” omitem que essa “coisa” que causa a desgraça do povo e que os beneficia, que eles ainda têm a cara de pau de dizer que é “democracia”, não é nem nunca foi nenhuma democracia verdadeira, porém a sua contrária, a OCLOCRACIA.
Sérgio Alves de Oliveira - Advogado e Sociólogo

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