terça-feira, 29 de novembro de 2016

Medo das ruas ✰ Artigo de Ricardo Noblat

 
Disse Michel Temer que para atender à voz das ruas, ele e os presidentes da Câmara dos Deputados e do Senado haviam combinado enterrar qualquer coisa que cheirasse a anistia por crimes de corrupção.
Não foi por deferência à voz das ruas que eles procederam assim. Foi por medo. Só se ouviria a voz das ruas nas manifestações marcadas para o próximo dia 4. Por enquanto, ela só se fez ouvir por meio das redes sociais e da imprensa.
Mas foi o que bastou. Temer ficou sabendo que a gente que gritou “Fora, Dilma” havia se juntado à gente disposta a seguir gritando “Fora, Temer” para encher as ruas das principais cidades do país – dessa vez pedindo “Fora, anistia” ou “Fora, corruptos”.
Seria demais para um governo impopular, cercado de problemas por todos os lados, e tendo de enfrentar uma crise política provocada por ele mesmo – a da promoção à questão de Estado de um problema particular de um ex-ministro.
Geddel Vieira Lima voltou à Bahia, e ali amargará a frustração da perda do cargo de Secretário do Governo e do apartamento no prédio cuja construção foi embargada pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional.
Mas a crise ficou no colo de Temer, por culpa de Temer, que não parece entender o que se passa com o país. Ele não foi posto no lugar de Dilma para repetir os erros dela, muito menos para incorrer em novos erros. Não foi não.
Nem foi posto porque os brasileiros desejavam vê-lo onde está. Temer deve a presidência unicamente ao desastre do governo anterior do qual fez parte. E à Constituição que prevê a posse do vice quando o titular do cargo renuncia, morre ou é deposto.
É um presidente legítimo, mas sob suspeição. Cabe-lhe arcar com uma herança maldita que foi construída sob os seus olhos e com a cumplicidade do seu partido. Não pode culpar o destino pela situação em que se encontra. De resto, conspirou para tal.
Se fracassar, não pense que dividirá a culpa com Dilma. A ex-presidente é passado, e um passado que se deseja esquecer. Temer se ofereceu como uma ponte para um futuro melhor. Cumpra, pois, o que prometeu.
Ricardo Noblat - Jornalista

Um comentário:

Andressa Pepper disse...

Nota dez, com louvor, para o autor do texto.
Não estamos mais para embromações. Queremos ver o nosso querido Brasil ser passado a limpo e já!

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