quinta-feira, 24 de novembro de 2016

Ninguem sabia de nada! ✰ Artigo de Astor Wartchow

Há uma cena no filme "O Julgamento de Nuremberg" - que trata dos nazistas levados a julgamento - que não me sai da lembrança.
Na ocasião, muitos juízes deste tribunal de exceção, representantes dos países vencedores da segunda guerra, hospedaram-se em casas de famílias alemãs.
A cena a que me refiro ocorre entre o general norte-americano e a dona de casa alemã, durante o café da manhã. Em determinado momento dos delicados e esforçados diálogos, o general pergunta para a senhora:
- Mas vocês não sabiam de nada do que estava acontecendo durante estes anos (referindo-se ao conjunto perverso da obra nazista)? A senhora responde: -Não, nos não sabíamos!
Relativamente ao Brasil, esta cena me vem a lembrança não pela crueldade e violência vigente mas por analogia a situação atual - de fragilização da economia nacional, precarização total das contas públicas e o consequente desemprego em massa.
Afinal, não faz muito tempo havia um discurso eufórico, de abundância e de virtudes governamentais nunca dantes visto, mas cujas bases reais (e retóricas) eram contestadas por muitos economistas e cronistas(entre os quais este que vos escreve), ainda que sob severa crítica e vigilância dos simpatizantes da nova era.
Ainda que sucessivamente alertados sobre a fragilidade sócio-econômica do "conjunto da obra", nada abalava o bem sucedido discurso, aliás, avalizado e reavalizado pelo povo.
Mais: assim como ignoravam os alertas relativas a natureza da gestão, também ignoravam a qualidade da seleção e folha corrida das novas e velhas companhias de ocasião.
Agora, angelicalmente muitos se surpreendem com o estado caótico das contas públicas municipais, estaduais e nacionais, como se não houvera um período anterior de uso e abuso. 
A exemplo do tribunal de Nuremberg, nossa Operação Lava-Jato - ainda que não possa fazer condenações por má gerência sócio-econômica - ao menos caça corruptos de hoje e de ontem. E há vagas prisionais abertas para todos os partidos e políticos. É só uma questão de tempo e oportunidade. 
Enquanto isto, aqui no nosso amado Rio Grande, o atual governador recebe todo o tipo de acusação, como se fora responsável pelo estado geral das contas públicas. Como os ignorados alertas nacionais, no caso gaúcho os avisos já existem há mais de trinta anos.
Mas, a julgar pela reação sindical e corporativa ao "pacote" de reformas que o governador Sartori enviou ao Poder Legislativo, também aqui, a exemplo do caso alemão e nacional, ninguém sabia de nada!
Astor Wartchow - Advogado, possui pós-graduação em Especialização em Projetos Sociais e Culturais (UFRGS-2003) e graduação em Ciencias Jurídicas e Sociais pela Universidade de Santa Cruz do Sul-RS (1988).

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