quarta-feira, 16 de novembro de 2016

República de bandidos ✰ Artigo de Waldo Luís Viana

O Brasil é um país dialético. Nesse sentido, boto a mão na palmatória dos materialistas. Senão vejamos: quando eclodiu o escândalo do Mensalão, em 2005, tivemos a ventura de assistir ao Roberto Jefferson liquidar o José Dirceu, que desejava ser presidente do Brasil, sucedendo o Lula. Num triste fim, Zé Dirceu está preso e com várias condenações nas costas. Ao denunciar todas as falcatruas do PT, Jefferson, que tinha alguma culpa no cartório, foi preso também, cumprindo pena e perdoado, mas tornou-se nosso bandido predileto.
Posteriormente, tivemos a operação Lava-Jato, com seu processo particular do Petrolão, em 2014, associado em seguida ao impeachment da Dilma (2016), aprovado e disparado por Eduardo Cunha, ex-presidente da Câmara dos Deputados, que também possuía culpas no cartório, e está preso, esperando julgamento, mas tornou-se o bandido predileto de Roberto Jefferson. E muitos de nós agradecemos a Cunha a sua coragem de eclodir e conduzir o processo de impedimento da “presidenta inocenta”...
Agora, assistimos ao derretimento da autoridade de Renan Calheiros, atual presidente do Senado, investigado em 12 processos e perigando para ser réu no Supremo Tribunal Federal, brindando-nos com a possibilidade de investigar os super-salários dos Três Poderes, incriminando também o Judiciário, crivado de denúncias de grandes quantias recebidas por juízes e desembargadores, que chegam à soma de 200 mil reais mensais, entre vencimentos, vantagens, auxílios e verbas indenizatórias, estas não contempladas com a cobrança de imposto de renda. 
Ao nos lembrar da velha máxima de que rico não paga imposto no Brasil, saudamos o polêmico Renan como nosso próximo “predileto”, embora ele queira, por sua vez, destruir a operação Lava-Jato pelo fato inelutável de que ela realmente prende corruptos e talvez, helás, possa acabar com o clima de impunidade permanente em nosso país. 
Renan, por seu turno, é político matreiro e desobediente (sem pleonasmo) porque quer salvar a própria pele e de outros senadores e deputados sabidamente implicados em falcatruas, através de um projeto, engavetado desde 2009 e agora sobrevivente numa caixa de mágicas, com o fim de acusar de abuso autoridades do Judiciário que investigam malfeitos, submetendo-as a possíveis processos criminais. Mediante tal estratégia, e apostando na lentidão retrógrada dos processos, as lides ficariam para as calendas gregas, prescrevendo todas as condenações contra os culpados.
Se conseguir seu intento, acabaria a operação Lava-Jato nesse país dialético, em que o ladrão deseja punir o juiz. E essa confusão aborrece a população, agora sempre esclarecida e blindada pelas redes sociais.
Nossa Nação é dialética, porque são os bandidos que procuram salvar nossa dignidade conspurcada por outros bandidos. Profundos especialistas, conhecendo o contorno das estórias de gatunagem e falando a mesma língua, podem nos retirar desse esgoto que parece não ter fim...
Ao lado disso, vemos um governo fraco, substituto e covarde colocar as manguinhas de fora. Integrante da chapa de Dilma Rousseff, o presidente (?) Michel Temer está temeroso de ser julgado pelo TSE na mesma chapa da presidente deposta por crime de responsabilidade. Ele não deseja, também, a prisão de Lula, porque isso poderia atrapalhar a governabilidade, segundo o próprio, embora a maioria do povo brasileiro queira a prisão do ex-presidente.
Como parte do PMDB, entre os quais seus ministros, são objeto de desconfiança de que também têm culpa no cartório, o temor toma conta de Temer (sem trocadilho) e ele demonstra visivelmente que preferiria entrar num acordão geral, que não dispensaria medidas legislativas emergenciais, que acomodassem o apetite de procuradores federais e juízes que apuram hoje a corrupção vigente.
Afinal de contas, e dialeticamente, quando no mundo político quase todos são culpados, todos podem ser considerados inocentes. O PMDB manda há vinte anos no Brasil, temperando oligarquias regionais contra e a favor para manter os postos e cargos de confiança nos governos. Para onde vai o PMDB, pende o Brasil, mas o perfil cansativo de corrupção e esperteza cansou a população que, no fundo, repudia os seus métodos. O PMDB é uma geleia geral que mistura tudo, sempre condividindo o poder seja com quem for. É um partido sem ideologia e sem doutrina, interessado em manter o poder a qualquer preço, apenas um pouco mais tímido que o PT no desejo de permanência.
O lado positivo da descoberta de toda a corrupção petista é que ela revelou, à luz do sol, do que os políticos são capazes, envolvendo carteis de empreiteiras e empresários num festival de propinas e caixa 2 para engordar eleições de deputados, senadores, governadores e candidatos a presidente do Partido. Todo o novelo foi descoberto, mas continua confuso e emaranhado, a ponto de envolver outros partidos e contaminar a República inteira.
Se os juízes e procuradores federais continuarem investigando, não vai sobrar “pedra sobre pedra”, como recentemente afirmou um ministro do STF. O povo brasileiro deseja que seja implodido o vasto edifício de corrupção que foi construído e governa o país, acumulando esperanças ao ver algumas ratazanas ricas serem encarceradas. Aliás, faltam duas, no comando de tudo, e que todos sabem os nomes de cor...
Parece a todos que os tempos de punição severa aos ladrões de goiabada e de galinhas está terminando. Nossa República de bandidos, contra e a favor, começa a virar um filme pornô de sexo explícito sem censura, o que pode reedificar um país sério digno e honrado.
Novamente percebemos eflúvios dialéticos nesse movimento. O que era pior, deixando-nos perplexos, ao final da linha pode se tornar o melhor. O mais engraçado é que a sucessão de delações premiadas começa a ficar repetitiva porque só revela a reiteração dos velhos métodos coronelistas e patrimonialistas que sempre mandaram no Brasil. Os corruptos ficam indignados porque são seres normais, somente apanhados com a boca na botija, e que atualmente anseiam por tornozeleiras e prisões domiciliares. Querem se livrar das prisões comuns, dedicadas à raia miúda e à escória da sociedade, perseguindo uma punição menor e mais confortável.
Os corruptos estão muito nervosos. Afinal, jamais acreditaram que a história poderia se movimentar a favor do povo, que, pela primeira vez, está se negando a ficar apenas com as migalhas do banquete. Será que agora chegou a nossa vez? 
Assistamos, pois, aos próximos capítulos da novela “República de bandidos”, com os patrocínios de sempre, os que roubam pra se eleger e se elegem pra roubar...
Waldo Luís Viana - Escritor, economista e poeta.

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