terça-feira, 1 de novembro de 2016

Txau, queridxs. A derrota de Freixilma ✰ Artigo de Augusto de Franco

Freixilma foi derrotadx. Nas ruas, depois no Congresso e, depois ainda, nas urnas. Freixilma sintetiza o velho e o novo. O velho PT que enveredou para o crime e o novo PSOL que queria voltar às origens para acabar no mesmo caminho. São, ambos, representantes do projeto neopopulista que fenece no Brasil e na América Latina. A derrota do PSOL em todo o país revela que esse projeto não pode ser reinventado, a não ser, talvez, nas alfândegas ideológicas, como a ANPOCS, a USP e a UFRJ, nos bares do Leblon e da Vila Madalena, entre jornalistas do UOL e da Folha de S. Paulo, no meio dos funcionários de organismos internacionais, no sindicalismo que se apelegou, nos falsos movimentos sociais (quer servem de correias de transmissão de partidos estatistas), nas ONGs (que atuaram na era petista como organizações neo-governamentais). Mas tudo isso somado representa o quê? E o contingente de seus militantes e fiéis seguidores chegará a 1% da população?
Quem derrotou Freixilma, entretanto, não foram a direita, os conservadores, as elites, os coxinhas, os tucanos ou Geraldo Alckmin. Não! Foram as pessoas: nas ruas, no Congresso e nas urnas.
As tribos vão continuar, é claro, porquanto ser de esquerda não é uma opção política capaz de ser explicada por qualquer análise sociológica e sim um fadário antropológico. No interior dessas tribos os derrotados vão se debater, se atacar e se ferir, mas não vão encontrar uma saída.
Há (ou haveria) saídas. Para os petistas que quiserem (melhor seria dizer: que quisessem) se converter em players válidos da democracia, trata-se (ou tratar-se-ia) de demitir a velha direção e o velho capo(Lula) e refundar o partido. Isso, entretanto, eles não farão. Alguns, com pretensões eleitorais, abandonarão o partido. Aos poucos. Será como uma des-invasão de Roma pelos novos bárbaros.
Para os jovens que querem mudar o mundo, mas foram capturados por conversações hierárquicas e autocráticas recorrentes nas tribos do Leblon (ou da Vila Madá), o caminho de saída ainda permanecerá sendo o de entrada no buraco de minhoca que leva diretamente ao século passado. Dirão: “Não ganhamos governos, no voto, mas sempre podemos ocupar escolas, na marra”. Eles estão tão defasados da sociedade-em-rede que ainda acreditam em escolas.
É triste ver como o neopopulismo transferiu duas ou três gerações de brasileiros para algum lugar do passado. Isso não será estudado pelos universitários da ANPOCS. Para eles não há defasagem alguma entre a intenção (de mudança) e o gesto (autoritário, de impô-la aos demais), posto que já vivem confortavelmente no passado. Com a derrocada de Lula, eles esperam novas lideranças para adorar e seguir. Marina, ao que tudo indica (depois de tantos zig-zagues), terá dificuldade de se transformar numa espécie de comandante de um PT-do-Bem. Freixo é muito freixilma. Má-sorte! Não há no mercado da política de esquerda condutores de rebanhos com gravitatem suficiente para capturá-los (porque eles querem ser arrebanhados e guiados). Eles estão tão distantes dos Highly Connected Worlds que emergem neste momento que ainda acreditam em führers.
O PT perdeu tudo. O PCdoB (que, às vezes, quer ser mais PT do que o PT), continua na mesma trajetória cínica que alia a máxima rigidez doutrinária (de um Kim Jong-un) com a máxima flexibilidade tática (de um Renan) e não consegue acumular nada. O PSOL não ganhou nada. A falsa Rede de Marina não ganhou quase nada. Com tudo isso, eles não são capazes de parar para pensar o que havia de errado com um discurso maluco de golpe e com a palavra-de-ordem Fora Temer, que não foram comprados pela população? E não são capazes de inventar nada de novo, em termos de narrativa, para se reinventar?
É isso a chamada esquerda? Se for, realmente não há futuro: só passado.

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