quarta-feira, 24 de maio de 2017

Temer, Aécio e Al Capone ✰ Artigo de Tito Guarniere

Aécio Neves (PSDB-MG), que por pouco não foi presidente da República, beijou a lona. Ele não pode culpar ninguém, a não ser a si mesmo. Então o sujeito sai por aí, com o fogo da Lava Jato crepitando, em busca de dinheiro para pagar advogado? E procura o senhor Joesley Batista, da JBS, que já era mal afamado, e que agora, depois destes episódios, ficou esclarecido que deixa Capone no chinelo? E com tudo incendiando ao redor, troca confidências com o açougueiro, como se fosse um amigo de longa data, nem de leve suspeitando de que poderia ter um gravador ligado?
Aécio buscou, com Joesley, dinheiro do caixa dois da JBS, para pagar o advogado que o livraria da acusação de caixa dois dos outros processos em que está envolvido. Durante um bom tempo Aécio levou vantagem, como reclama o executivo da empresa Ricardo Saud: "Ele nunca fez nada por nós. Prometeu, prometeu e nunca fez nada". Mas sabem como é, com gângster não se brinca e a JBS deu o troco. E que troco!
Michel Temer, 76 anos bem vividos, revigorados pelo casamento com Marcela, tendo sido secretário de estado, deputado federal, presidente da Câmara, vice-presidente da República (está bem, ser vice de Dilma não é lá essas coisas) e sendo agora presidente, mesmo com tal currículo deu bobeira, recebeu na residência oficial do Jaburu, sem medo de que a prataria da casa fosse roubada, Joesley Batista, o homem da JBS.
E ali, em meio a cafezinhos (não há mais detalhes a respeito do cardápio), Joesley rezou o terço, reclamou que a torneira do BNDES andava seca, declarou o apreço por Eduardo Cunha, a quem, por sinal, destinava uma mesada mensal, e com a lábia de um operador de conto do vigário, foi induzindo o experiente Temer a assentir com certas práticas nada edificantes.
Não se deve dizer isso de um presidente, mas Temer, no melhor momento do seu governo, caiu como um patinho. Na vida é preciso ter competência e sorte. Sim, sei, é Maquiavel, "virtù" e "fortuna". Bem, virtude Temer vinha mostrando, surpreendendo a todos, promovendo as reformas que o Brasil está a exigir com urgência.
Todos, menos o povo brasileiro, que, distraído como sempre, e de certo modo merecedor de tudo o que lhe está acontecendo, nunca teve o presidente exatamente em alta estima. Em certos estados, como o Rio Grande do Sul, segundo pesquisas, Temer era mais impopular do que Dilma, o que não diz mal de Temer, mas do povo gaúcho, ao menos da parte que foi pesquisada.
O governante Michel Temer mostrou "virtù", mas ignorando o ritual do cargo, deu margem para o azar. Faltou-lhe juízo, que não se confunde com competência. É preciso muita falta de juízo para receber altas horas na noite, na residência oficial, fora da agenda, um bandoleiro. E mais falta de juízo, ainda, como Aécio, não levar em conta que poderia estar sendo gravado.
Que motivo Joesley Batista teve para incriminar Temer, gravando-o em momento de particular ingenuidade - quase escrevi de burrice - ninguém sabe direito. Talvez seja mais simples do que aparenta: gânsteres que se prezam só vão dormir felizes, como escoteiros às avessas, depois de cometerem uma má ação.
Tito Guarnieri - bacharel em direito e jornalismo e colunista do jornal O Sul, de Porto Alegre.

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