terça-feira, 20 de junho de 2017

Suspeita solta no ar ✰ Artigo de Gerson Nogueira

Quando a CBF sai de seu mutismo habitual para revelar que árbitros estão sendo procurados com intenções comprometedoras por "células criminosas" é sinal de que o futebol brasileiro está sob a ameaça do esquema de manipulação de resultados, supostamente inativo desde o escândalo envolvendo o ex-árbitro Edilson Pereira de Carvalho e a nefasta Máfia do Apito, em 2005.
A cabeça do monstro foi cortada naquela ocasião, mas o alerta oficial da CBF aos árbitros faz crer que o perigo é real e imediato. Aliás, é de estranhar que o corregedor de Arbitragem, Edson Rezende, ex-delegado da Polícia Federal, não tenha feito logo a denúncia aos órgãos competentes.
Pelo teor da circular, a CBF parece estar se precavendo contra possíveis denúncias de aliciamento de juízes, que têm sido “procurados por terceiros, inclusive ex-árbitros”, com “possíveis intenções comprometedoras”.
Os contatos, segundo Rezende, são feitos por “pessoas que já foram objeto de investigações e até punições por parte de órgãos competentes e com estas atribuições”, tentando firmar amizades e relacionamentos que permitam o “manuseio de resultados”.
Ao se antecipar, jogando a suspeita no ar, a CBF deu um passo arriscado, pois alimenta um indesejável clima de desconfiança em torno da arbitragem. Por outro lado, ao esperar por um fato concreto para acionar a Polícia, acaba por alertar os criminosos. O mais aconselhável seria agir em silêncio e flagrar os atos ilícitos.
Nesse caso, o ofício endereçado aos árbitros pode contribuir para que os esquemas se sofistiquem, dificultando ainda mais a descoberta dos crimes. Obviamente, ninguém pode responsabilizar a CBF por eventuais arranjos de resultados, mas a entidade abre um flanco perigoso ao explicitar um aviso que devia ficar restrito ao próprio quadro de árbitros.
Depois desse comunicado, as suspeitas – sempre presentes – sobre as arbitragens ganharão ainda mais força. Qualquer erro em marcação de pênaltis, impedimentos ou lances duvidosos passará a ser visto como peça de acusação aos árbitros.
A pergunta que se impõe é: a quem interessa esse estado de desconfiança generalizada, sem que haja uma investigação séria a respeito? Dona CBF com a palavra.

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