quinta-feira, 3 de agosto de 2017

Em registro de uma vida

Ainda que uma propaganda intensa possa fraudar a imagem de uma Instituição, não consegue se sobrepor, no tempo, à sua realidade permanente que fluiu para o restante da sociedade. (...) Imagem institucional não é um produto de mercado (...) por mais que haja esforço ideológico em sentido contrário. Não há como o adjetivo substituir o substantivo. É preciso atentar e admitir, de outro lado, que a “guerra das versões” pode reescrever a história, se nada ocorrer como reação. De um modo geral, é a versão que escreve a história. (...) Não há, pois, e este é o alerta, razão para que as Forças Armadas sintam-se imunes ou preservadas em sua missão nem que descuidem dela. Menos ainda para que desconheçam a engenharia de poder (interna e externa) que sobre elas se projeta, comprometendo seus valores e sua destinação. (...) Tudo se tornou possível… Em nome da democracia, usam-se seus meios e prepara-se a sua destruição! (...) Mas é importante deixar gravado que, enquanto vivermos a divisão ideológica interna, nos moldes e profundidade que permanecem em nosso meio, jamais o Brasil poderá resolver a equação que traduz o fim da própria natureza do Estado – prover os meios para uma vida digna para a nação que o organiza! Enquanto não entendermos que teremos que construir, com nosso trabalho, os fundamentos de um projeto nacional e enquanto nossas mazelas políticas não forem alijadas dos poderes formais que estruturam o Estado, não teremos solução. (...) enquanto não entendermos o mundo como ele é e criarmos mecanismos eficientes de defesa de nossos interesses, qualquer que seja o regime político, estaremos sempre na “área cinzenta” do mundo. O primeiro passo, para tanto, é nos livramos de todos os herdeiros dos “entreguistas” que a elite nacional, ao longo do Império e da República, fartamente produziu entre nós. Eles existem à esquerda e à direita e para onde quer que se volte a busca. O segundo é abandonarmos as “utopias” de internacionalismos de qualquer espécie. Só a produção de autos e as provas da história, neles diligenciadas nos vários campos, poderiam tornar mais clara a história oral que queremos transmitir, comprometida com a verdade histórica, às gerações futurasNeste esforço, incluo o meu testemunho, certo de que ele não me pertence, mas ao futuro dos meus concidadãos. 
Quem assim se pronunciou, e muito mais de importante pôde dizer, foi Adalto Luiz Lupi Barreiros, Coronel Paraquedista do Exército Brasileiro.
Extraordinariamente inteligente, agudo, reto, incansável, sempre alerta - um dos raros que permaneceram a postos nas muralhas de um castelo que, dia após dia, enquanto esperamos que se revele, por milagre, erguido em pedra e cal, cada vez mais nos vem demonstrando ser feito quase que apenas de nossos sonhos -, Barreiros se destacava em qualquer ambiente e também do grosso da tropa sonolenta que deveria manter-se de sentinela.
Desde o momento em que nos apresentamos, discutimos muito. Discutíamos muito, sim, a respeito de muitos assuntos, principalmente a respeito dos reais perigos que nos rondam, do que motiva e impulsiona as investidas dos inimigos e de quem e quantos seriam eles. Porque eles existem, não são poucos e não estão de brincadeira.
Barreiros não foi, no entanto, um mero e eventual parceiro meu em conversas sobre temas que ambos considerássemos interessantes ou importantes. Nós nos tornamos amigos.
Amizades, não as fazemos à toa e o que nos amigos vemos refletido é o que permite que uma amizade se mantenha. Amigos são qualquer coisa de muito especial, o que justificaria, se nada mais o justificasse, que eu procurasse agora exaltar a memória de Barreiros, que muito me honrou oferecendo-me a sua amizade - uma amizade nascida madura, do respeito que pôde produzir uma afeição mútua, da fé em um mesmo princípio, da coincidência nas expectativas e na avaliação dos meios que encontrávamos válidos ou não para que se alcançasse determinado fim necessário. Coração imenso, ainda que muitas vezes disfarçado por um vozeirão e uma carranca, ele foi um dos poucos amigos de verdade com que a vida me brindou. Uma amizade valiosa, essa, da qual a vida, ela mesma, agora me privou. 
Barreiros fará falta. Muita falta. Não só a seus filhos, não só à Neide, sua mulher de muita fibra, não só aos seus antigos companheiros de caserna, não só aos seus amigos de verdade, não só a mim – ele fará falta ao Brasil, a todos os que o querem solidamente construído. Seu silêncio significa uma baixa irreparável que sofremos na batalha cotidiana que alguns de nós (poucos) ainda insistimos em travar em prol de tudo o que desde sempre deveria ter norteado todas as vidas em nosso País, de tudo aquilo em que deveríamos, desde sempre, ter acreditado e pelo que deveríamos, desde sempre, ter lutado.
Por isso, não quero aqui registrar sua morte – quero registrar sua vida. Vida que, por menos que alguém mais suspeite e por menos que ele próprio suspeitasse, terá sido, para todos nós, de imensa importância. Por tudo o que nela fez, disse, quis dizer e quis fazer. Por ter sido um exemplo admirável de conseqüência, destemor e integridade. Uma vida que não poderá ser desconsiderada nem, muito menos, esquecida.
Vania L. Cintra

Nenhum comentário:

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...