quinta-feira, 28 de junho de 2018

Curtindo a solidão ✰ Artigo de Tito Guarniere

A solidão não é, em si, um mal. Como disse o cineasta Woody Allen, em outro contexto, não devemos desprezar a solidão, pois quando estamos sós, estamos na companhia da pessoa que mais gostamos.
Não lhes falo da solidão do amor, do asilo, do exílio, mas da opção consciente de ficar a sós um par de horas, um dia inteiro até. Falo de um intervalo livre das injunções e palpites que nos cercam e de certa forma nos aprisionam. Misturados nos ambientes de convívio humano, perdemos um pouco da nossa individualidade, nos afastamos dos nossos percebimentos naturais e de nossas intuições mais genuínas.
Não se trata - longe disso – de fazer um exame de consciência, na tradição judaica-cristã. Já cometemos erros suficientes, tropeçamos bastante em nossos defeitos e atos impensados. E ainda vamos nos dar ao luxo de ficar remoendo fiascos e fracassos, tendo de concluir, então, que somos ainda piores do que imaginamos?
Também não é para corrigir rumos, dar novo sentido às nossas escolhas, planejar o futuro breve e remoto. Se for para fazer planos, recompor em ordem a vida, é mais sensato buscar companhia, discutir em mesa redonda, ouvir conselhos, ler um livro de autoajuda. Na solidão do bem apenas damos um tempo para nós mesmos. A sós, deixamos rolar, soltamos as velas, abrimos o coração para a emoção e o bem viver.
Busque um canto sossegado, desligue o telefone e curta a sós a vida. Tome um texto, um poema que você um dia apreciou, mas não foi fundo. Leia de novo o poema de Drummond, o texto de Vargas Llosa, o conto de Machado de Assis. Então, - e isto é certo - encontrará significados novos, tocantes, profundos, palavras que redimem e restauram a fé na vida e na humanidade.
Sozinho, em posição confortável, escolha um disco. Tom, Elis, Ernesto Nazareth, Gershwin, Cole Porter, por aí. Deixe o disco rolar até que o ar fique rarefeito, respire cada acorde, cada tom sutil, até que a alma transborde de emoção. Ouça em calma, como se fosse a última vez o “Take Five” na gravação histórica de 1959 do quarteto de Dave Brubeck. Dá para ver: mãos mágicas movem as teclas do piano; sopros contidos, calculados em rigor de álgebra, acionam mecanismos sutis do sax-alto; dedos ágeis esvoaçam - talvez toquem, até - as cordas do baixo; as baquetas voam dos pratos aos taróis da bateria, na velocidade da luz, o conjunto perfeito, a cadeia lógica dos sons, a dança surreal dos instrumentos.
Veja um filme. Veja “Picnic - Férias de Amor”, de Joshua Logan. Embale seus sonhos com Kim Novak e William Holden dançando “Moonlight” no deck à beira do lago, à luz de lanternas chinesas, cheios de amor para dar. Veja “Uma Aventura na Martinica”, de Howard Hawks, o grande Hawks, um “Casablanca” menor, mas não muito, o filme onde Lauren Bacall e Humphrey Bogart se conheceram e viveram felizes até a morte dele, em 1957.
É isso, caro leitor. Como Fernando Pessoa disse com total razão, tudo vale a pena se a alma não é pequena. Até a solidão.
Tito Guarniere - Bacharel em direito e jornalismo, colunista do jornal O Sul, de Porto Alegre.

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