segunda-feira, 7 de agosto de 2017

No mato sem cachorro ✰ Artigo de Jorge Geisel

"DEZ MIL DIFICULDADES NÃO CONSTITUEM UMA DÚVIDA" - ISAAC NEWTON

O país continental brasileiro está sempre diante de encruzilhadas. Assim, foi quando escolheu separar-se do Portugal europeu, decidindo pela cúpula por um caminho confortável, determinando a Casa de Bragança como guia imperial de sua independência, graças às manobras da esperteza mineira de José Bonifácio de Andrada e Silva. Não tivemos "Founding Fathers", mas um Patriarca resoluto, culto e atrevido nos riscos...
Como ficou comprovado, fazer grandes coisas é mais fácil do que ficar patinando em pedras. Difícil mesmo é comandá-las, enveredando pelos rumos certos. Da relativamente fácil epopeia na promoção separatista, o novo país nascido de um reino, houve por bem fundar outro novo, com uma corte cabocla e de onde reinou, por pouco tempo, um imperador impetuoso e depois seu pai, um soberano cultíssimo, honesto e mais democrático do que qualquer presidente latino-americano. Não tinha ganas de imperar. Foi defenestrado na forma mais aviltante - não havia mais um Caxias para professar a lealdade das armas. 
Em 1889, nova encruzilhada: para evitar a subida do francês consorte Conde D' Eu, marido da libertadora e promissora Princesa Isabel, com azar um generalíssimo monarquista de coração proclamou uma república xenófoba, edificada por alguns republicanos golpistas, da sinistra seita da Ordem e Progresso (qual ordem para que progresso?) e logo aderida pelos escravocratas vingativos e por muitos monarquistas oportunistas. Rui Barbosa, um constitucionalista, monarquista e adepto do Federalismo - um velho sonho revolucionário do tempo em que havia machos dispostos a pelejar por ideais - atingiu a glória de haver influído, derradeiramente, para a lavra da melhor Constituição que o Brasil jamais teria, diante das encruzilhadas das politicagens que o país enfrentaria doravante, em suas próximas constituições provisórias, absolutamente remendáveis e massudas para facilitar as diversas interpretações de plantão, fora do entendimento comum razoável... 
Mas, daquele ponto em seguida, do notável baiano Rui ao energúmeno paulista Ulysses, até a odisseia das quadrilhas sucessivas que assaltaram os Três Poderes, com lapsos de autoritarismos tidos como saneadores, Pindorama vê-se hoje, em face de mais uma encruzilhada: seguir em frente nos disparates, na ilusão continuada de separar o Estado, o sabichão dos privilégios, do Povo pacificado na servidão voluntária, ou trilhar pelos caminhos obscuros do tudo pelo social ? Outros melhores rumos, mais difíceis de alcançar, estariam sujeitas ao tempo?
Dalai Lama, destronado e desterrado pela avalanche invasora comunista chinesa, com sua sofrida experiência budista ensina que só existem dois dias no ano, nos quais nada pode ser feito: um se chama ontem e o outro se chama amanhã... Mas, uma coisa é certa, o tempo não cura tudo, ainda mais quando ele é governado pelos infames horários de verão, numa economia que representaria apenas uma leniência de prefeito partidarista ladravaz, nas timbas interioranas... O tempo, na realidade não cura nada, apenas tira o incurável fora da jogada, por algum tempo. E, além do mais, sempre haverá um substituto na incurabilidade. Faz parte da renovação política tupiniquim...
Os presentes obstáculos em Pindorama são apenas consequências da ignorância de ontem e de agora, como pérolas negras das falsidades encrustadas na pacificação aparente de um povo, hoje legalmente desarmado. Fazem histórias. Tudo indica, na encruzilhada desse agosto leonino e indigesto, que estamos num mato sem cachorro.
Jorge Geisel - Advogado, poeta, articulista, membro trintenário do Lions Clube do Brasil. 

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